2026. Apresentação

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lo que

transborda


Há fronteiras que separam, delimitam e impõem distâncias. Há outras que, embora constituídas por diferenças, podem se 
tornar lugares de encontro, passagem, negociação e transformação. Pensar o transbordamento é reconhecer que o conhecimento, a criação artística e a experiência humana não se encerram nos limites que lhes são estabelecidos. Transbordar é deslocar perspectivas, atravessar territórios, aproximar saberes e produzir outras possibilidades de existência e convivência. 

É nesse horizonte que se realiza, entre os dias 13 e 16 de outubro de 2026, em Goiânia, o IX Seminário Internacional de Pesquisa em Arte e Cultura Visual (SIPACV), promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Arte e Cultura Visual da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás, em cooperação com a Universidad de la República, do Uruguai.

Ao longo de quase duas décadas o SIPACV vem acompanhando e participando da consolidação da pesquisa em arte e cultura visual na UFG. Sua trajetória está vinculada ao fortalecimento da pós-graduação, à ampliação das interlocuções entre diferentes campos do conhecimento e à constituição de redes acadêmicas que ultrapassam os limites institucionais e nacionais. A parceria com a Udelar, construída por meio de intercâmbios, pesquisas e experiências compartilhadas, tornou-se parte fundamental dessa história, afirmando uma perspectiva de cooperação latino-americana que reconhece nossas aproximações, diferenças e desafios comuns.

Nesta edição, o eixo Transborde propõe pensar a fronteira não apenas como aquilo que distingue ou separa, mas tambémcomo território de relações. Interessa-nos aquilo que acontece entre os lugares, entre as linguagens, entre os corpos, entre as formas de conhecimento e entre as experiências que constituem a vida social. Interessa-nos, sobretudo, o que pode surgir quando nos dispomos a atravessar essas fronteiras sem apagar as diferenças que nos constituem.

Essa disposição exige reconhecer que a arte e a cultura visual não estão apartadas das questões de nosso tempo. As imagens participam da construção de imaginários, disputam sentidos, organizam visibilidades e também produzem silenciamentos. As práticas artísticas, educativas e investigativas podem tanto reproduzir estruturas  estabelecidas quanto abrir caminhos para interrogá-las e transformá-las. Por isso, pensar o transbordamento implica também perguntar npelas condições políticas, sociais e culturais que permitem ou impedem a circulação de pessoas, conhecimentos, direitos e experiências.

O IX SIPACV afirma, nesse sentido, seu compromisso com a democracia, com o Estado Democrático de Direito, com a liberdade de expressão, com a produção científica e com a garantia dos direitos sociais e constitucionais. Reafirmamos a importância da universidade pública, gratuita, inclusiva e socialmente comprometida, assim como a necessidade de preservar e ampliar as conquistas históricas que resultam das lutas e experiências coletivas da sociedade brasileira.

Defendemos o acesso à educação, à arte, à cultura, à ciência e às tecnologias como dimensões fundamentais da vida democrática. Reconhecemos a diversidade cultural, étnica, territorial, geracional e de modos de existência não como obstáculo à convivência, mas como condição para a construção de uma sociedade plural. Em um tempo marcado por desprezo aos direitos, conhecimentos e formas de participação social, entendemos que a universidade deve permanecer como espaço de pensamento crítico, de debate público e de produção de conhecimentos comprometidos com a dignidade humana.

Transbordar, portanto, não significa abandonar as conquistas que nos trouxeram até aqui. Significa também defendê-las, fazê-las alcançar outros sujeitos e territórios e reconhecer que a democracia é uma construção permanente, que exige cuidado, participação e responsabilidade coletiva.

Essa compreensão orienta a programação do seminário. Os Grupos Temáticos constituem espaços de apresentação e discussão de pesquisas, mas também de escuta e interlocução entre pessoas em diferentes momentos de sua formação. As mesas de abertura e a plenária final ampliam essas conversas, aproximando experiências acadêmicas e perspectivas produzidas em distintos contextos latino-americanos.

A programação artística e cultural participa igualmente dessa reflexão. A presença da música, das experiências de criação coletiva, das práticas expositivas e das ações desenvolvidas em diálogo com saberes indígenas afirma que a produção de conhecimento não se realiza por uma única linguagem ou metodologia. O recital Uma ópera do Sertão através de canções, o concerto Ausências, Rios e Memórias, o Dispositivo Transborde, as vivências no Instituto Takinahakỹ de Formação Superior Indígena e a oficina coletiva Dar bandeira, proposta por integrantes da Udelar, são experiências que, em suas singularidades, ampliam as possibilidades de encontro entre pesquisa, criação, memória, território e participação.

Particularmente, a proposta de uma oficina de criação e ativação coletiva de bandeiras nos convida a pensar os sentidos de pertencimento e representação. Uma bandeira pode demarcar territórios e identidades, mas pode também ser reinventada como gesto compartilhado, tecido por muitas mãos. Nesse movimento, o que se produz não é apenas um objeto, mas uma experiência de convivência, negociação e criação conjunta. De diferentes maneiras, essa disposição atravessa o conjunto do seminário.

Há, ainda, uma dimensão desta edição que merece reconhecimento especial: sua construção coletiva com a participação decisiva da representação estudantil sempre atenta, crítica, criativa, política.

O IX SIPACV nasceu de uma proposta acadêmica inicial, elaborada para orientar sua realização e viabilizar os recursos necessários, em interlocução com docentes que possuem uma relação histórica com o seminário. Entretanto, à medida que o trabalho avançou, o evento foi adquirindo formas que ultrapassaram aquela formulação inicial. A atuação das comissões organizadoras, com expressiva participação discente, tornou-se fundamental para a configuração que agora apresentamos à comunidade acadêmica.

Estudantes do nosso Programa de Pós-Graduação em Arte e Cultura Visual assumiram responsabilidades, estabeleceram interlocuções, organizaram processos, formularam soluções e participaram de decisões que atravessam as diferentes dimensões do seminário. A comunicação, a organização acadêmica e científica, a preparação dos dispositivos artísticos, os anais, a logística e o acolhimento foram se constituindo por meio desse trabalho compartilhado.

Essa participação não deve ser compreendida apenas como colaboração na execução de tarefas. Ela constitui também uma experiência formativa e uma forma efetiva de participação na vida universitária. Aprender a organizar coletivamente, negociar possibilidades, enfrentar dificuldades e produzir respostas para situações concretas integra a formação acadêmica tanto quanto as atividades desenvolvidas nas salas de aula, nos laboratórios e nos espaços de pesquisa.

O seminário que chega ao público, portanto, não corresponde simplesmente à realização de um projeto previamente estabelecido. Ele é também resultado das relações, iniciativas, escolhas e transformações produzidas ao longo de sua organização. Há nisso uma expressão muito concreta do próprio transbordamento que propomos discutir.

Ao reunir pesquisadoras e pesquisadores, artistas, docentes, estudantes, egressas e egressos, convidadas e convidados de diferentes instituições e territórios, desejamos que o IX SIPACV seja um espaço de circulação de conhecimentos, mas também de produção de vínculos. Que as diferenças possam ser reconhecidas sem se converterem necessariamente em distâncias intransponíveis. Que o debate acadêmico preserve sua dimensão crítica e, ao mesmo tempo, sua capacidade de escuta. Que a criação artística continue nos oferecendo modos de perceber aquilo que ainda não sabemos nomear.

Realizar este seminário em Goiânia, no território do Cerrado, é também afirmar a importância dos lugares a partir dos quais pensamos e produzimos conhecimento. Nossa interlocução com outras regiões do Brasil e com países latino-americanos não pressupõe abandonar esse lugar, mas reconhecer suas histórias, culturas, contradições e potências como parte de uma geografia mais ampla de relações.

Se a fronteira pode ser lugar de encontro, que possamos habitá-la sem renunciar às nossas diferenças. Se o conhecimento pode transbordar, que encontre caminhos para circular além dos espaços que tradicionalmente o legitimam. Se a universidade é uma conquista social, que permaneça aberta à pluralidade de vozes, experiências e sujeitos que a constituem.

“Gracias a la vida, que me ha dado tanto”, hermosa Violeta Parra.




E l i n a l d o d a S i l v a M e i ra

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